quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Conselhos de um Preto-Velho - Fernando Sepe











Á noite, quando a maioria das pessoas está dormindo, diversas falanges espirituais se desdobram em trabalhos socorristas de assistência à humanidade encarnada. Devido ao sono, a queda natural do metabolismo e das ondas cerebrais, o corpo espiritual despende-se naturalmente do corpo físico. Aproveitando-se desse fato natural e inerente a todo ser humano, muitos amigos espirituais trabalham nessa hora da noite, retirando essas pessoas do seu corpo físico, dando um toque sensato e elas diretamente em espírito, ou mesmo, simplesmente trabalhando as energias do assistido, com mais liberdade, a partir do plano espiritual da vida. Um dia desses, durante um trabalho de assistência, estava conversando com um preto-velho que responde, nas lidas de Umbanda, pelo nome de Pai José da Guiné.

Segue o diálogo:

- Pai José, esse trabalho de assistência na madrugada é enorme não? O médium umbandista muitas vezes nem imagina o tamanho dele, não é mesmo?

- É sim fio. Trabalho grande, toda noite, mas são poucos que lembram da espiritualidade dia-dia e mantém sintonia elevada antes de dormir.

Isso acaba por barrar as possibilidades de trabalho em conjunto conosco, você sabe disso. A maioria dos médiuns por aí pensam que o único dia de trabalho espiritual é o dia de trabalho no terreiro, é uma pena.

- É verdade, as pessoas tendem a se preparar muito para o dia de trabalho no terreiro, mas esquecem dos outros dias.

- Preparar? Muitas vezes elas nem se preparam, fio. A maioria chega lá cheia de problemas e preocupações ma cabeça. Da um trabalho danado acoplar na aua toda encardida de pensamentos e sentimentos estranhos deles. E nego num tá falando que preparação é tomar um banho de erva antes do trabalho, não...

- Ué, mas o banho de erva é importante, nao é pai?

- É, claro que é. Mas num é tudo, antes do banho de erva, seria melhor um banho de bom humor, com folhas de tranquilidade e flores de simplicidade, isso sim ajudaria. Num dianta colocar roupa branca, defumar, tomar banho, se o coração tá sujo, se a boca maldiz, se o rosto está sem alegria e o espírito apagado, limpeza interna fio, antes de limpeza externa...
- Tá certo...

- Tá ceto, mas voce muitas vezes num faz isso né? Tudo bem, todo mundo tem lá seus dias ruins. O problema é quando isso se torna constante, Fio, a Umbanda é muito rica em rituais, em expressões exteriores de alegria e culto a divindade, mas isso deve ser utiliado sempre como uma forma de exteriorizar o que de melhor trazemos denro de nós, não uma fuga do que carregamos aqui dentro.

Volta seus olhos pra dentro e lá preste culto aos Orixás so depois disso, canta, dança...

- Quando estiver participando de um trabalho, esteja por inteiro, em corpo físico, coração e mente. Não faça das reuniões espirituais um encontro social. antes de começar os trabalhos, medita, ora, entra em sintomia com o trabalho que já está acontecendo. Durante os cantos, busca a sintomia com os Orixás. Nesse momento, voce e Eles não estão separados pela ilusão da matéria tão juntos em espírito e verdade...

- Acompanha as batidas do atabaque e faz elas vibrarem em todo seu ser. Defume seu corpo, mas defuma também sua alma, queimando naquela brasa seu ego, sua vaidade, seu individualismo, que lhe cega os sentidos.

- Trabalha, aprende, louva, cresce meu fio, mas o mais importante: Leva isso pra fora do terreiro lá dentro, todo mundo é filho de pemba, todo mundo tá de branco, todo mundo ama os Orixás... mas aqui fora, logo na primeira dificuldade, duvidam e esquecem dos ensinamentos lá recebidos. Aqui fora, num tem caridade, fraternidade, Orixás, espiritualidade, mas a Lei de Umbanda não é pra ficar contida no terreiro.

A Lei de Umbanda é pra estar presente em cada ato nosso em cada palavra, em cada expressãode nosso ser...

- Percebe fio? Voce é médium o tempo todo, não so no dia de trabalho, mas todo dia. Voce é médium até quando ta dormindo.

Pai José fez uma pausa e eu fiquei pensando a respeito da responsabilidade do trabalho mediúnico. De quantos médiuns por aí nem tinham idéia do trabalho espiritual que as muitas correntes de Umbanda desenvolvem, de como a vivência de terreiro demandava uma mudança interior, uma postura diferente em relação à vida. Enquanto pensava a respeito, Pai José disse:

- È por aí meso fio. A partir do momento em que a pessoa internaliza os valores espirituais, umnovo mundo, cheio de novas perspectivas surge. novas idéias, novos ideais, uma forma diferente de encarar a vida, esse é o resultado do trabalho.

A caridade não é mais uma obrigação, mas torna-se natural e inerente ao próprio ser, assim como a resiração. A sintomia acontece esteja onde ele estiver, caregando consigo a Lei da Sagrada Umbanda em seu coração...

- Lembre-se: Aruanda não é um lugar! Aruanda é um estado de espírito... Voce a carrega para onde for, isso é trabaho, isso pe sacerdócio, isso é viver buscando a espiritualização...

- Por isso, mei fio, faz de cada trabalho espirital que voce participar um passo em direção a esse caminho. Um passo em direção a unidade com o Orixá. Cada reunião, um passo... sempre!

Pai José de Guiné é um espírito que há muito tempo eu conheço, trabalhador incansável nas lidas da cura espiritual. Apresenta-se como umnegro, com cerca de 50 anos, sempre com seu chapéu de palha a cobrir-lhe a cabeça e seu olhar firme e determinado. Tem um jeito muito diretoe reto de falar as coisas, sempre nos alertando a respeito de posturas incompatíveis com o trabalho espiritual. É um espírito muito bondoso, com quem já aprendi muitas coisas. Fica aí o toque dele, que muito me serviu, a respeito de levar o terreiro para o nosso dia-dia.

O médium umbandista, espírita... não importa a linha de trabalho, precisa estar consciente de suas responsabilidades todos os dias, e não apenas na hora dos trabalhos espirituais.



sábado, 20 de fevereiro de 2010


Sermão da Montanha - Mateus Capítulo : 5

Jesus, vendo a multidão, subiu ao monte e ensinava aos seus discípulos dizendo:

1- Bem-aventurados os humildes, porque deles é o reino do Céu.

2- Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados pelo própio Deus.

3- Bem-aventurados os pacientes, porque eles herdarão a terra.

4- Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque terão o amparo da Justiça Divina.

5- Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.

6- Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus face a face.

7- Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.

8- Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da verdade, porque deles é o Reino do Céu.

9- Bem-aventurados sois vós, quando vos perseguem, quando vos injuriam e, mentindo, fazem todo mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso garladão
no Céu.

“Se se perdessem todos os livros sacros da humanidade, e só se salvasse O SERMÃO DA MONTANHA, nada estaria perdido.”

Mahatma Gandhi

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Teólogo Leonardo Boff sobre a Umbanda



Quando atinge grau elevado de complexidade, toda cultura encontra sua expressão artística, literária e espiritual. Mas ao criar uma religião a partir de uma experiência profunda do Mistério do mundo, ela alcança sua maturidade e aponta para valores universais. É o que representa a Umbanda, religião, nascida em Niterói, no Rio de Janeiro, em 1908, bebendo das matrizes da mais genuina brasilidade, feita de europeus, de africanos e de indígenas. Num contexto de desamparo social, com milhares de pessoas desenraizadas, vindas da selva e dos grotões do Brasil profundo, desempregadas, doentes pela insalubridade notória do Rio nos inícios do século XX, irrompeu uma fortíssima experiência espiritual.

O interiorano Zélio Moraes atesta a comunicação da Divindade sob a figura do Caboclo das Sete Encruzilhadas da tradição indígena e do Preto Velho da dos escravos. Essa revelação tem como destinatários primordiais os humildes e destituídos de todo apoio material e espiritual. Ela quer reforçar neles a percepção da profunda igualdade entre todos, homens e mulheres, se propõe potenciar a caridade e o amor fraterno, mitigar as injustiças, consolar os aflitos e reintegrar o ser humano na natureza sob a égide do Evangelho e da figura sagrada do Divino Mestre Jesus.

O nome Umbanda é carregado de significação. É composto de OM (o som originário do universo nas tradições orientais) e de BANDHA (movimento inecessante da força divina). Sincretiza de forma criativa elementos das várias tradições religiosas de nosso pais criando um sistema coerente. Privilegia as tradições do Candomblé da Bahia por serem as mais populares e próximas aos seres humanos em suas necessidades. Mas não as considera como entidades, apenas como forças ou espíritos puros que através dos Guias espirituais se acercam das pessoas para ajudá-las. Os Orixás, a Mata Virgem, o Rompe Mato, o Sete Flechas, a Cachoeira, a Jurema e os Caboclos representam facetas arquetípicas da Divindade. Elas não multiplicam Deus num falso panteismo mas concretizam, sob os mais diversos nomes, o único e mesmo Deus. Este se sacramentaliza nos elementos da natureza como nas montanhas, nas cachoeiras, nas matas, no mar, no fogo e nas tempestades. Ao confrontar-se com estas realidades, o fiel entra em comunhão com Deus.

A Umbanda é uma religião profundamente ecológica (ambientalista). Devolve ao ser humano o sentido da reverência face às energias cósmicas. Renuncia aos sacrifícios de animais para restringir-se somente às flores e à luz, realidades sutis e espirituais.



Leonardo Boff